SIGA A SETA • 05.11.11
Nino Bellieny
Me disseram que se eu trabalhasse muito
Teria todas as coisas necessárias e conforto.
Que se eu estudasse com afinco
Depois de cinco, oito anos ou mais
Teria um diploma na parede
Um Dr. antes do nome e todo o respeito.
Me falaram que se eu me dedicasse à honestidade
Votasse nos homens de bem
Seria ideal o meu pais e a minha cidade
Votei e os homens estão cheios de bens.
Me contaram que se eu obedecesse as leis
Estacionasse nos locais indicados
Não jogasse rua no lixo
Seria cidadão e não meio-homem, meio-bicho
Como tantos deitados nas calçadas das igrejas.
Que se eu servisse à Pátria
Aos pastores e sacerdotes
Evitasse a cobiça, gula, luxúria e os demais pecados
Não seguisse a bandeira de Iscariotes
Fosse cego e surdo como os postes
O Céu me seria reservado.
Ai eu seria feliz como num Domingão do Faustão
Meu carro popular na garagem
Minha inércia chamada de descanso
E minha fraqueza batizada de coragem.
Me politizaram com futebol, novelas, bebidas alcoólicas
Drogas lícitas, ilícitas e pregações apostólicas
Seja um bom homem, respeite os limites
Faça uma poupança, forme uma família
Eu e outros milhares seguimos a cartilha
Nascendo entre raspas, vivendo entre aspas, morrendo entre caspas
Etapas e beijos técnicos sem amor real.
Acreditando em sonhos vendidos em intervalos comerciais
Vivendo numa imensa fila de agência bancária.
Sepultando-me em vidas perfeitamente normais.
Até o dia da ressurreição final.
OUTRA PARCERIA COM O BRENO PALHARES. • 05.07.11
MINHA QUERIDA • 05.07.11
NINO BELLIENY
Afinal, você não é mesmo uma do tipo comum. Não foi só a beleza estonteante nem o sucesso que me atraíram: foi o que senti dentro do seu olhar quando a vi pela primeira vez. Meu mundo girou. Principalmente no dia em que suas pupilas brilharam molhadas e tive a certeza que ali estava uma guerreira, monumental em sua vontade, mas, também monumental em carências.
Havia um leve desespero em seu semblante, um pedido de carinho e ao mesmo tempo em suas atitudes, a negação de tudo, sendo forte, ousada e vencedora. Enquanto lá no fundo, reinava uma menina frágil e perigosa. Ardente e sedutora garota . Gosto de você. Poderia continuar sendo seu amigo de longas conversas. O amante mais caloroso. No entanto, não estou livre nem agora também muito seguro de nada, simplesmente por saber que à cada vez que o meu olhar cruzar com o seu, correrei o risco das coisas mudarem. Deixo o meu silêncio. Nem mais afirmo a minha inteira disponibilidade para quando precisar de um amigo que não faz perguntas e irá aonde for preciso em nome do carinho e da sede causada pela saudade.
Tenho que ser duro comigo e com você. Apesar de muitas derrotas, quedas e recaídas, brigas e tantas idas e vindas, não mais vacilarei. Há quem conviva conosco e nada saiba da gente e felizmente existe o contrário. Resta, todavia, o respeito, mesmo para quem nos fez mais mal do que bem. Nossa história de amor foi envelhecida em tonéis de carvalho, amaciada pelo tempo, curtida pela experiência de cada aventura. Pelas serpentinas do destino atravessamos bons e péssimos momentos.
Tentei deixar-lhe várias vezes e em todas, lutei entre a luz e as trevas, sonhando com o seu sabor, aroma e intenso prazer sempre oferecido. Acabei várias vezes retornando mansamente aos seus dourados braços. Desta feita estou decidido. Querida aguardente, amada cachaça: é chegada a hora de despedir-me. A Lei Seca, as constantes ressacas e os micos cometidos, me fizeram ver que não dá mais para conviver com você. Sou fraco, reconheço, porém, agora chega! Adeus noitadas etílicas, adeus porres sensacionais. Divorcio-me de suas líquidas influências e nem seus parentes mais próximos como o whisky, a vodka, o vinho e a cerveja vão me convencer a voltar.
Adeus… antes que eu seja preso, o meu fígado exploda ou o meu coração arrebente… adeus!
DIZER ADEUS NUNCA SERÁ FÁCIL • 05.03.11
Nino bellieny
Só no Dia do Trabalhador para alguém incansável, não trabalhar e infelizmente, nos deixar. Lucilene Santos Monteiro exercia suas funções de modo eficaz ,criativo e disciplinado exatamente há 21 anos: o mesmo tempo de existência da instituição a qual servia.
As marcas do sorriso tímido e da boa vontade estarão indeléveis por toda a parte. Os muitos amigos, colegas, alunos e familiares tentam entender a razão de tão prematura partida. A morte é sempre a abertura final da caixa de surpresas da vida e não há como se acostumar. As horas de ensinamentos da arte culinária tão bem dominada por ela e o comportamento profissional ético não serão esquecidos.
Um caráter irrevogável, generoso, enriquecedor nos detalhes de uma curta história, porém, estimável. Aos 44 anos, foi selecionada pelo Criador de Todas as Coisas para dar aulas no céu. Psicopedagoga, mãe, amiga, esteio da fé e fiel exemplo do alto nível dos demais funcionários da Fundação Municipal de Infância e Juventude de Campos.
A tarde de hoje é chuvosa e fria. As esguias palmeiras da Fundação ,sentinelas de outros tempos, testemunhas de tantos acontecimentos parecem segredar ao vento um sussurro apenas perceptível para quem sabe o valor da saudade: “Lu-ci-le-ne…Lu-ci-le-ne…”
LITER • 04.30.11
NINO BELLIENY
Nino Bellieny
Livros não traem. Distraem. Não cansam. Descansam. Não chateiam, embora sejam objetos geometricamente chatos. Não poluem. Não falam, logo não perturbam. Não reclamam, amam sem pedir nada em troca: exceto, olhos atentos e mãos carinhosas percorrendo linhas e páginas.
MINHAS TELAS • 04.28.11
PARA ESQUECER ALGUÉM NÃO EXISTE RECEITA • 04.27.11
NINO BELLIENY
Para esquecer alguém não existe receita. Quanto maior o esforço maior a resistência. Isto não é só filosofia de bar, mas, principalmente uma questão de Física. É como tentar empurrar uma pedra de meia tonelada sem a ajuda de meios necessários… para esquecer alguém é preciso alguns equipamentos.
Eles não estão disponíveis no mercado. Não podem ser confundidos com pessoas que entrarão em sua vida, mas não em seu coração. Se entrarem, não significa que seja preciso expulsar antigos inquilinos para a acomodação de outros. Eles não saberão a não ser que sejam comunicados, que coexistem e são moradores de uma assombrosamente espaçosa casa. Não se cruzarão pelos corredores, não usarão o mesmo banheiro nem a piscina, só o dono do imóvel saberá que naquele espaço almas diversas caminham eternas.
Querer esquecer alguém, provavelmente é porque algum tipo de mágica errada aconteceu. Uma palavra afiada que cortou a invisível carne que sangra somente por dentro, uma negativa amorosa, uma ou várias formas de indiferença, várias traições sintetizadas em uma única- a decisiva e derradeira, a reveladora traição- uma amizade interesseira, enfim, tantas maneiras de machucar, algumas até na tentativa de se defender.
Então procura-se o aparente impossível: banir do solo sagrado da memória afetiva, a imagem da pessoa querida, o som da sua voz, as palavras do tempo de carinho, os momentos de encantamento. Na luta para não lembrar, lembra-se. Uma batalha naval onde os neurônios atiram torpedo uns contra os outros e não conseguem a vitória do esquecimento. A intensa guerra atiça as recordações e o cheiro, o sabor dos beijos, a consistência da pele, os olhos brilhantes e molhados de alguém dançando como figura viva.
Esquecer alguém só é possível… não esquecendo! Cultivando com carinho, mesmo que pareça ser a mais dolorosa alternativa. Perdoando… entendendo que não se pode culpar ninguém que fez e ainda faz, sempre fará, parte da vida de quem deixou que parte fizesse. Também perdoar-se. Não se culpar por isso, mas reconhecer, que se alguém chegou, foi por encontrar a porta aberta e do mesmo modo saiu. Ainda que esta porta estivesse trancada por fora, quem deseja ir, mesmo com o corpo aprisionado já está longe faz tempo. Seria imperdoável querer manter uma pessoa contra sua própria vontade. Esquecer alguém não é imediatamente trocar de alguém e sim, seguir vivendo.
O MATADOR • 04.26.11
NINO BELLIENY
Tem a fala mansa, quase arrastada, característica que verei em outros, mas nele é poderosa, calculada, ainda que. ele não tenha até hoje visto um filme de Bogart ou livros policiais, mas, quem sabe, aquele jeito dissimulado e tranqüilo, intime tanto quanto o 38 que carrega na subaqueira e a 7.65 na parte detrás das calças. Um fino punhal de prata da Argentina vai por dentro do cinto, a fivela é o cabo e conta como já se safou de boas com aquela simples arma. Parece confiar em mim ao mostrar o segredo, além de uma previsível 22 que carrega na canela.
Não é a confiança num estranho que o faz abrir-se como um jornal da manhã, mas, sim, a sua inabalável segurança, bem disfarçada no tom humilde que usa para relatar suas aventuras. Olho para o apreensivo motorista da rádio que o conhece de infância e as suas lendas. Ali estamos só nós e o gravador a se embebedar das lentas palavras daquele homem e seus sessenta e poucos anos. A matéria vai para o programa de variedades da emissora, embora servisse para o programa policial. Isto soaria óbvio demais e nele, o óbvio, só se nota com certo esforço.
O andar cansado, sandálias havaianas, calça de linho, camisa idem, boina como os italianos da Toscana, bigode e cabelos grisalhos, quem não o conhecesse jamais teria medo. Por isto tantos morreram e outros tantos morreriam por serem surpreendidos com tanta candura, que só os que sabem ler através dos olhos, perceberiam ser inflamável, volátil e mortal.
Fala de seu preço, descontos, empreitadas e favores, que já eliminou por simpatia reparando injustiças e só respeita crianças. Explica que levanta toda a vida do alvo antes, para não cometer erros nem pecados, pois é homem de igreja e muita fé. Tem marcas espalhadas pelo corpo dos 12 tiros recebidos sem problemas, apenas “cosquinhas”.
Do seu ganho tem casa na praia, chácara, é amigo dos “Homens”, é querido pela comunidade, odeia ladrões e estupradores, torce pelo Botafogo, ensina rindo, que o melhor é atirar na testa, para economizar munição, (reclama que a munição está cara), mas que tem gente, que de tão ruim, não morre com poucas balas. A noite vem chegando, a conversa vai acabar. Ainda fala dos inúmeros processos que responde e nenhum ano, mesmo um dia, na cadeia.
Tem o sorriso fácil, o saque e o gatilho também, quando para demonstrar pontaria e firmeza atira ao redor dos meus pés. É tão rápido, que nem percebo. Ri e elogia minha frieza…
Que nada… O jeito é rir também. Só depois que saímos dali é que fico sabendo de uma doença terminal e da vida que não duraria mais dois meses. Antes, com certeza muitos iriam embalados por suas mãos de fogo.

